TRIBUNA DO ADVOGADO

Novembro/2013

Tendler prepara filme sobre advogados de presos políticos na ditadura

CÁSSIA BITTAR
 
No próximo ano, o golpe que instaurou a ditadura militar no Brasil por mais de duas décadas completa 50 anos. Uma história que já foi contada de diversas formas desde então e inspirou obras marcantes no cinema nacional, mas ainda guarda memórias e personagens.
 
 
Cineasta respeitado, autor de alguns dos documentários políticos de maior sucesso no país - entre eles Jango, lançado em meio à campanha Diretas Já, em 1984, e que trazia, sob um regime militar esvaziado, mas ativo, a história do ex-presidente deposto -, Sílvio Tendler prepara, para 2014, uma trilogia que contará algumas dessas memórias, entre elas a de homens e mulheres fundamentais na luta contra as atrocidades cometidas pelo Estado: os advogados que atuaram na defesa de presos políticos.
 
 
"É um lado da ditadura não abordado no cinema. Na verdade, se olharmos para o cinema americano, por exemplo, nós vemos quantos filmes se passam em tribunais. Já no Brasil não há essa tendência, até porque o trabalho do advogado aqui é muito mais difícil", observa Tendler, que recebeu a reportagem da Tribuna do Advogado em seu apartamento, enquanto fechava detalhes do segundo filme da série, Militares pela democracia, sobre os homens do Exército, da Marinha e da Aeronáutica que sofreram por reagir ao golpe dentro dos quartéis.
 
"Estou sempre pensando em como enfrentar injustiças e a censura, seja ela qual for. Portanto, assim que pensei em realizar o filme sobre os advogados, fiquei instigado a fazer seu irmão gêmeo, para mostrar também como nem todos os militares perseguiram, torturaram, foram algozes nessa história. Alguns se viram expulsos das Forças Armadas, cassados, tiveram suas vidas sacrificadas por conta da ditadura", conta ele. Já o terceiro filme da sequência, Há muitas noites na noite, é baseado no Poema sujo, de Ferreira Gullar, e conta a vida do poeta no exílio.
 
A ideia de Os advogados contra a ditadura surgiu do livro Advogados e a Ditadura de 1964 – A defesa dos perseguidos políticos no Brasil, organizado pelos professores Fernando Sá, Oswaldo Munteal e Paulo Emílio Martins e lançado pela editora PUC-Rio em 2010. A obra é fruto de uma pesquisa que durou dois anos e envolveu mais de 30 pesquisadores de instituições de várias partes do Brasil.
 
"Sou colega de departamento do Fernando Sá na PUC e, após ter sido presenteado com o livro tivemos uma discussão entre os professores e pensamos em transformar esse tema em um filme", explica Tendler. Depois disso, o cineasta conseguiu patrocínio da TV Brasil, do Ministério da Justiça, da Vale e da OAB/RJ, que participa do projeto através dos depoimentos do atual e do ex-presidente da Seccional, Felipe Santa Cruz e Wadih Damous, respectivamente.
 
 Se olharmos para o cinema americano, por exemplo, nós vemos quantos filmes se passam em tribunais. Já no Brasil não há essa tendência, até porque o trabalho do advogado aqui é muito mais difícil
Silvio Tendler
cineasta
Para Felipe, a associação do nome da Ordem ao filme é motivo de orgulho: "É muito importante para a OAB/RJ associar sua identidade a obras como esta do Tendler ou a de Paula Fiúza sobre Sobral Pinto [o documentário Sobral - O homem que não tinha preço, lançado ano passado], que também contou com nosso apoio. São filmes que resgatam a história da advocacia e princípios importantes da sociedade brasileira em um momento em que devemos reafirmar os valores democráticos".
 
Uma das autoras do livro que deu origem ao filme, Alessandra Schimite atuou também na pesquisa para a produção e diz que a obra audiovisual é uma extensão da escrita: "No livro, a proposta era contar um pouco das memórias desses grandes defensores da democracia, tendo como base entrevistas e outros documentos levantados pela equipe. Já no filme se busca ampliar esse conjunto de depoimentos. Mas os dois corroboram a importância desses advogados na história política do país".
 
Personagem de ambos, Antônio Modesto da Silveira elogia a abordagem do tema. Modesto foi considerado pelo jurista Heleno Fragoso (falecido) o advogado que mais defendeu perseguidos da ditadura. "O Tendler é um grande cineasta e teve a sensibilidade de pegar essa ideia e realizar um trabalho que será importantíssimo num momento em que o Brasil quer sua verdade histórica", afirma ele.
 
Perseguido e sequestrado por agentes do DOI-Codi, ao relembrar sua saga Modesto constata que fez parte de "uma das missões mais nobres" da advocacia brasileira: "Hoje estou convencido de que o nazifascismo teria inveja dos abusos aos direitos humanos que a ditadura brasileira realizou", observa.
 
 É muito importante para a OAB/RJ associar sua identidade a obras como esta do Tendler ou a de Paula Fiúza sobre Sobral Pinto
Felipe Santa Cruz
presidente da OAB/RJ
Entre os advogados entrevistados por Tendler estão ainda Eny Moreira, Técio Lins e Silva, George Tavares e Alcyone Barreto (falecido em agosto deste ano), entre outros, que lembram também da atuação de profissionais como Sobral Pinto, um dos maiores símbolos quando se fala nos profissionais que  defenderam presos políticos. Para o cineasta, todos os casos são exemplo de coragem.
 
"Essas pessoas toparam enfrentar os desafios de um país em que se julgavam civis em tribunais militares. Enfrentaram os algozes que alguns chamam de juízes e conseguiram salvar muitas vidas. Em um país sem lei, eles acreditaram na lei para defender presos políticos", ressalta.
 
A relação entre esses profissionais e seus clientes será um ponto alto do filme: "Os advogados eram verdadeiros pais para os prisioneiros, eram amigos. Os próprios ex-presos políticos contam no filme, de forma engraçada, como, em meio a uma guerrilha, desconfiavam da ajuda daquelas pessoas. Eles queriam chegar sozinhos nos tribunais e fazer proclamações revolucionárias, mas os advogados diziam: ‘Minha obrigação é te defender’. Era muito bonita essa relação, uma história que renderia um grande longa de ficção", vislumbra o cineasta.
 
Entre os casos abordados, Tendler cita o de presos que chegavam ao tribunal para serem julgados com o corpo mutilado por torturas, praticamente sem movimentos nas pernas e amparados pelo seu advogado. "Tem também a história de quando Alcyone Barreto defendeu um grupo de estudantes aprisionado ao pichar a frase ‘abaixo a ditadura’. Ele argumenta que deveriam ter sido presos antes de concluir a frase, pois ela iria se referir à ditadura de outro país, já que o Brasil não vivia em uma, e sim, em uma democracia relativa. Alcyone alegou que, se o promotor os acusasse, estaria afirmando que nosso país estava sob ditadura. E assim os meninos foram liberados".
 
Os três filmes estão sendo produzidos em parceria com a TV Brasil e serão exibidos em formato de séries de três episódios cada, antes de virarem longas que entrarão em cartaz nos cinemas também no ano que vem. Segundo Tendler, a expectativa é que o lançamento seja ainda no primeiro semestre, a fim de coincidir com a terrível memória daquele 1º de abril de 1964.
 
Versão online da Tribuna do Advogado.
 
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