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14/05/2015 – 16h57 | última atualização em 18/05/2015 – 15h33

Ineficácia de testes em animais é denunciada em seminário na OAB/RJ

Fonte: redação da Tribuna do Advogado
Em seminário realizado nesta quarta-feira, dia 13, na sede da OAB/RJ, e organizado em parceria pelas comissões de Bioética e Biodireito (CBB) e de Proteção e Defesa dos Animais (CPDA), cientistas e pesquisadores denunciaram uma ineficácia maior do que a divulgada nos testes de produtos e medicamentos em animais. Segundo eles, além da questão moral, estudos demonstram que, em razão da diferença na fisiologia em relação aos humanos, a porcentagem de aproveitamento desses testes é baixa para o valor investido.
 
“Apenas de 5% a 12% dos produtos que passam em testes em animais são aprovados em humanos. Temos então 88% a 95% de falhas, o que demonstra que essa é uma ciência claramente problemática”, afirmou o biólogo e pesquisador da Universidade Federal Fluminense (UFF) Róber Bachinski.
 
As pesquisadoras Márcia Triunfol e Cynthia Schuck reforçaram os dados: “Para se ter uma ideia, a perecibilidade, ou seja, o que se prevê que dá certo em um organismo e vá funcionar da mesma forma em outro, entre um rato e um camundongo é de apenas 60%. Imagine de um rato para um ser humano”, destacou Cynthia.
 
Márcia, que é pós-doutora pelo National Cancer Institute, dos Estados Unidos, também atentou para as particularidades fisiológicas: “O primeiro órgão que é checado nos testes para saber se um composto é ou não tóxico ao ser humano é o fígado. E recentemente saiu um estudo mostrando como o fígado do camundongo é completamente diferente do fígado humano. Além disso, os animais são super dosados e ficam em cativeiros, ou seja, não são as condições ideais para o organismo deles responder”.
 
Ela completou: “existe um estigma de que o benefício é enorme. mas na realidade são milhões e milhões de dólares , bilhões de animais, de vidas, uma quantidade de recursos absurda e o beneficio é mínimo. É um sistema que não funciona”. Segundo ela, por meio das técnicas realizadas hoje em animais, medicamentos de sucesso desenvolvidos há muitos anos não seriam aprovados: “A Aspirina, que é o remédio mais vendido no mundo, não passaria no teste de animais porque em doses altas pode provocar sangramento em ratos e cães. Dessa forma, podemos estar perdendo várias ´aspirinas´ atualmente”.
 
A cientista apresentou um estudo americano que, segundo ela, poderia alavancar a mudança de paradigma que os três palestrantes da primeira mesa defenderam: a simulação de órgãos humanos em chips, que imitariam as condições do organismo para um teste mais preciso. “As questões que tínhamos há cinquenta anos não são as mesmas que temos hoje. Os testes com animais tiveram, sim, sua utilidade, mas agora as questões são muito mais complexas, especificas. Não da mais para usarmos um modelo levemente parecido”, disse ela.
 
Cynthia, que é pós-doutora em Biologia evolutiva e cognição animal pela Universidade de Oxford, na Inglaterra, denunciou o que chamou de “publicação seletiva” das pesquisas: “Na maioria das vezes somente é mostrado aquilo que deu certo. E a ideia que se passa é de que aquilo de fato funciona quando, na verdade, estatisticamente a gente sabe que a cada 20 experimentos, somente um vai funcionar ao acaso”.
 
A proposta da especialista é que sejam implementadas para pesquisas com animais as mesmas regras de testes com humanos: “Os maiores beneficiários , além dos animais , serão os próprios pesquisadores, a indústria farmacêutica, os consumidores básicos da evidência pré-clinica”.
 
Falando sobre o uso de animais no meio da educação, Bachinski contou que a utilização no ensino médio e fundamental, proibida no Brasil desde 1979, ainda é recorrente nos Estados Unidos: “Lá, foram dissecados no ensino médio, só no ano de 2006, 6 milhões de animais”.
 
No Brasil, o problema que ele aponta é a opressão de alunos de graduação que se negam a usar animais no ensino: “Esses estudantes acabam isolados na faculdade e acabam tendo problemas no desenvolvimento do curso”.
 
Ele lembrou a Lei Arouca, que determina que não se pode utilizar animais quando existem métodos alternativos: “A questão é que, para educação, não existe essa validação dos métodos alternativos. O que existe é conhecimento do professor sobre eles. Isso que deve ser estimulado”.
 
O seminário contou também com a participação do presidente da CPDA, Reynaldo Velloso; da vice-presidente e dos membros da CBB, Fernanda Bianco, Carolina Velasco e José Pimenta, respectivamente; e com palestras sobre a tutela jurídica dos animais realizadas pelos especialistas na área Daniel Braga Lourenço, Fábio Correa e Frank Alarcon.
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