Cabral defende o aborto para reduzir crimes

 

 

Do Jornal O Globo

 

25/10/07 - O governador Sérgio Cabral afirmou que as altas taxas de natalidade em localidades pobres, como a Rocinha, são verdadeiras fábricas de marginais. Em entrevista concedida ao site G1 na segunda-feira e divulgada ontem, ele defendeu a legalização do aborto, que deveria ser realizado, de acordo com o governador, na rede pública de saúde. "Sou favorável ao direito da mulher de interromper uma gravidez indesejada. Sou cristão, católico, mas que visão é essa? Esses atrasos são muito graves. Não vejo a classe política discutir isso. Fico muito aflito. Tem tudo a ver com violência. Você pega o número de filhos por mãe na Lagoa, Tijuca, Méier e Copacabana, é padrão sueco. Agora, pega na Rocinha. É padrão Zâmbia, Gabão. Isso é uma fábrica de produzir marginais", afirmou Cabral.

 

As declarações do governador tiveram grande repercussão durante o dia. A Embaixada do Gabão no Brasil repudiou as declarações de Sérgio Cabral e emitirá uma nota oficial.

 

O reitor da PUC, padre Jesús Hortal, lamentou a afirmação do governador: "O índice de natalidade caiu mesmo em áreas carentes, o governador deveria atualizar seus números. Não se pode combater a violência com uma outra violência ainda maior: atentar contra a vida de uma criança concebida."

 

Para o líder do PSOL na Câmara, Chico Alencar, as afirmações de Cabral foram nazi-fascistas e racistas. O deputado federal defendeu a difusão de informações sobre contraceptivos e planejamento familiar. "Opor "padrão Suécia" a "padrão Zâmbia" é eurocentrismo neocolonialista. Defender aborto como meio de controle da natalidade dos pobres, por serem estes potenciais criminosos, é justificar políticas de extermínio, além de ofensa às mulheres da Rocinha e de todas as comunidades pobres", disse.

 

Aborto pode reduzir criminalidade, diz especialista

 

O presidente da Associação de Moradores da Rocinha, William de Oliveira, declarou-se a favor da vida. "Não adianta só discursar, dizer que a criminalidade vai ser combatida de uma forma ou de outra. É preciso dar educação", disse William.

 

O presidente da OAB do Rio, Wadih Damous, também defendeu a legalização do aborto, mas não como uma política de controle de natalidade.

 

Nem todos os especialistas, no entanto, discordam do governador. Para Gabriel Hartung, que coordenou o estudo sobre criminalidade em tese de doutorado da Escola de Pós-Graduação em Economia (EPGE) da Fundação Getúlio Vargas (FGV), há evidências fortes de que a legalização do aborto ajuda na redução da criminalidade.

 

"Estudos mostram que a criminalidade nos Estados Unidos caiu bastante 20 anos depois da legalização do aborto. O mesmo aconteceu no Canadá e na Finlândia. Em São Paulo, há essa evidência sobre gravidez na adolescência e mães solteiras (de que crianças geradas nessas condições têm mais chance de entrar na criminalidade). Parece ser algo universal", disse Hartung ao site G1.