Um levantamento da Caarj com 140 advogados de idades entre 34 e 77 anos que requereram o benefício assistencial* por motivo de doença junto à instituição mostrou que a enfermidade com mais incidência é o câncer (32%), seguida por depressão (19%). Os dados são de janeiro a setembro deste ano. 

Os homens são maioria entre os casos de câncer: representam 66% desse universo. A faixa etária acima dos 56 anos é preponderante. Eles recorrem à Caixa com a doença já em estágio avançado, acometidos de outros males associados ou metástase, e poucas vezes sobrevivem. 

“As mulheres, em regra, diagnosticam e tratam a doença de forma precoce e retornam ao pleno exercício da advocacia”, diz a coordenadora do Núcleo de Assistência da Caarj, Ligia Callado, responsável pelos números. 

O médico Hilton Duarte, responsável pelas perícias da Caarj, se diz alarmado com casos de tumores de aparelho digestivo, cólon e mama em advogados na faixa dos 30 anos. 

Duarte identifica o estresse, tão presente na vida do advogado, como gatilho para comportamentos nocivos à saúde. 

“O advogado passa o dia correndo de um lado para o outro, a rotina é fisicamente estafante. Acaba dormindo mal, comendo mal, fumando mais, o que pode favorecer o surgimento de cardiopatias ou diabetes”. 

O clichê “homem não se cuida” também pode ser constatado nas ações promovidas pelo Núcleo Saúde, como medição de glicose e pressão, por exemplo. “Elas são esmagadora maioria entre os participantes”, garante a coordenadora Gláucia Magalhães. 

O presidente da Caarj, Ricardo Menezes, atribui os resultados a um “pensamento antiquado” entre os advogados de sua geração.

“O homem tem barreira em relação a médico, reluta a buscar prevenção contra o câncer de próstata, sabota-se. Nesta gestão, vamos avançar na consolidação dos dados sobre a saúde da advocacia para direcionar campanhas que combatam a cultura machista que impede que o homem busque prevenção do câncer que começa pela próstata e se alastra”, afirma.

Tristeza incapacitante

Os pedidos de auxílio à Caarj por motivo de depressão vêm crescendo de 2017 para cá. As mulheres advogadas representam a esmagadora maioria: são 85% desse grupo. A faixa etária maior de 55 anos é mais afetada, diz a assistente social. 

“O desemprego, a falta de clientela, as mudanças no Judiciário que dificultaram o exercício profissional são gatilhos para os casos”, avalia Callado.

A Caarj acaba de implantar atendimento psicológico (Avenida Marechal Câmara, 210, 7º andar). As sessões, individuais, são oferecidas às terças e sextas-feiras, mediante agendamento pelo telefone: (21) 2277-2372 / 2277-2351. 

Vice-presidente da Caarj, Marisa Gaudio designou a violência contra a mulher como frente de atuação no cuidado à saúde. Um grupo reflexivo coordenado pela psicóloga Maria Augusta Fischer reúne-se mensalmente para discutir o tema. Informações sobre o encontro de novembro podem ser obtidas pelo número da Caarj (2277-2372)

‘Cuidado de si como inerente à preservação dos direitos dos outros’

O Conselho Federal da OAB vem dedicando atenção especial à conscientização sobre doenças mentais. A conselheira federal Sandra Krieger lançou, em setembro, a segunda edição da Cartilha da Saúde Mental da Advocacia, parceria da Ordem com a Coordenação Nacional das Caixas de Assistência dos Advogados (Concad). 

Em novembro de 2018, foi instituído o Plano Nacional de Prevenção das Doenças Ocupacionais e da Saúde Mental da Advocacia, oficializado pelo Provimento 186/2018 do CFOAB. 

Coordenado por Krieger, o programa prevê o estabelecimento de parceria com universidades para elaborar dados estatísticos sobre a saúde da classe em todo o país. A pesquisa será inédita: a cartilha do CFOAB precisou basear-se em dados divulgados por uma entidade de classe americana. 

Sandra Krieger coordena projeto que cuida da saúde mental da advocacia / Foto: Eugenio Novaes

A conselheira está à frente da criação de um núcleo permanente voltado para a saúde mental do advogado que vá além de campanhas pontuais e cujas ações envolvam todo o sistema OAB.

Entre os advogados entrevistados informalmente, Krieger percebeu grande incidência de síndrome de burnout  (ou do esgotamento profissional), de depressão e de síndrome do pânico. A vergonha de se expor também foi uma constante nos encontros. 

“Há um preconceito grande. Um dos colegas disse temer que ninguém contratasse um advogado que tomasse antidepressivo. Não há demérito em falar numa mesa de colegas sobre uma crise de ansiedade”.  

A instabilidade econômica do país, a violação de prerrogativas por parte de autoridades, que atuam com arbitrariedade, e o voluntarismo judicial são constantes nos relatos. 

O advogado empresarial sofre ainda com a pressão de metas e jornadas de trabalho intermináveis aliada à glorificação do estresse, que segue a lógica: quanto mais esgotado, mais sucesso tem.

“Esses fatores geram um mecanismo brutal de ansiedade e frustração profissional na advocacia”, diz a conselheira, que elegeu como mote dos trabalhos “o cuidado de si como inerente à preservação dos direitos dos outros”.

* Trata-se de um benefício emergencial de R$ 1.500 em parcela única, chamado “Inclusão Social”. Uma nova parcela só pode ser solicitada depois de seis meses.