A OABRJ promoveu, por meio da Comissão de Direitos Sociais e Interlocução Sociopopular - presidida por Marcelo Chalréo-, a roda de conversa 'Carnaval e o Rio' na última sexta-feira, dia 7. Na ocasião, a professora, pesquisadora e escritora Raquel Valença e a compositora Manuela Oiticica, conhecida pelo nome artístico Manu da Cuíca, discutiram os impactos das ações adotadas pela prefeitura sobre a manifestação cultural, além de compartilharem as vivências proporcionadas pela folia.

Umas das pautas destaque na conversa, mediada pelo jornalista e escritor Marcelo Moutinho, foi se a festa deveria ser responsabilidade da Secretaria de Cultura ou da RioTour – empresa do município que promove o turismo na cidade. 

Para Raquel Valença, o evento, apesar ser uma grande atração aos turistas, precisa ser tratado como uma expressão cultural do povo e, para isso, ser gerido por alguém que se identifique. 

“O carnaval, antigamente, era a expressão cultural do povo. De muitos anos para cá, o que acontece é que o evento turístico vai, aos poucos, sobrepujando-se ao cultural. Então, embora eu ache que a responsabilidade do carnaval deveria estar na mão da Secretaria Municipal de Cultura, eu não me importaria que estivesse na RioTour, desde que pusessem na RioTour uma pessoa identificada com o espetáculo. Não é o que vem acontecendo”, disse.

Manu da Cuíca concordou sobre a importância de a administração ser feita por pessoas identificadas com o evento, e falou sobre o movimento da atual gestão municipal de colocar a máquina pública para atuar em função de empresas privadas, modificando a lógica do carnaval. 

“Para entender melhor o que tem acontecido, é preciso entender que a prefeitura, em uma trinca pouco transparente entre ela, uma cervejaria e uma produtora, deu essa forma de produto ao carnaval de rua. Pode-se notar a presença da cor da marca interferindo na estética; os ambulantes, que trabalham por conta própria, são obrigados a vender essa marca, virando revendedores sem receber por isso; e a guarda municipal atua como fiscal de cervejaria”, ressaltou Manu.

Vivências 

As admiradoras da folia também compartilharam experiências pessoais proporcionadas pela festa. Manu contou sobre a emoção de vencer a disputa de samba na Estação Primeira de Mangueira em 2019, com Canção Para Ninar Gente Grande, dois dias após ao nascimento de sua primeira filha. 

“Minha filha nasceu dois dias antes do samba ter sido escolhido. Eu estava amentando, pela madrugada, quando vi pela internet que o samba havia sido escolhido. Foi muito marcante”, disse Manu. Também é de Manuela a autoria do samba-enredo 'A verdade vos fará livre', que a Verde e Rosa defenderá na avenida esse ano. Ela assina a composição ao lado de Luiz Carlos Máximo.

Para Raquel, o carnaval, no período da Ditadura, representava um refúgio à sensação de cerceamento de liberdade que pairava.

“Eu fui vitimada pelos rigores da Ditadura. Nesse momento, era na quadra da Império Serrano que eu encontrava um espaço de liberdade de opinião. Naquele período obscuro e triste da história do Brasil, ali havia alegria e liberdade. As pessoas falavam o que pensavam e estava tudo bem. Não era errado ter opiniões contrárias.”, contou Valença.