Se for preciso definir em uma palavra do que se tratou o debate inicial da série Novembro negro e de luta, promovida pela Comissão de Direitos Sociais e Articulação Sociopopular da OABRJ na manhã desta quinta-feira, dia 14, na sede da Seccional, ela seria: esperança.

Tendo como participante de honra um dos maiores nomes da literatura contemporânea e considerada uma voz protagonista dentro da comunidade negra brasileira, Conceição Evaristo, o debate tratou, principalmente, das possibilidades de mobilização e de luta para mudança de uma estrutura de racismo enraizado, na qual negros ainda são os que mais morrem, os menos representados em estruturas de poder, os mais pobres e apresentam a maior taxa de analfabetismo (dados colhidos na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, realizada pelo IBGE).

Respondendo a questões trazidas pela estudante e diretora de Relações Internacionais da União Nacional dos Estudantes (UNE), Maria Carol, que apresentou sua visão sobre o momento atual no qual, segundo ela, se acredita em salvação pela educação “em um cenário de retrocesso”, e difícil de se manter esperançoso, Conceição Apresentou sua vivência como professora em classes populares e trouxe uma reflexão: “Até que ponto nós, negros com ensino superior, não podemos pensar em processos de educação alternativos, trabalhos de base e que possam trazer esse enfrentamento?”.

Ela completou: “É claro que a educação por si só não resolve, até porque o processo de educação implantado pelo Estado significa muito pouco e é uma educação que já vem marcada por determinados vícios ou mesmo pelo objetivo da não educação”.

Conceição destacou como um dos últimos grandes saltos do setor a aprovação, em 2003, da Lei 10.639, que inclui no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira”. “Precisamos continuar a produzir e comemorar a aprovação de leis populares, mesmo que se dêem em um Estado que tem força muito maior do que a gente. Porque já sabemos que era uma ilusão nossa crença, há alguns anos, de que as demandas populares seriam respondidas pelo governo, que isso seria nossa garantia. Mas essas demandas não podem deixar de ser colocadas e não podemos deixar de tentar achar solução”.

Liderança do coletivo Ocupa Alemão, movimento iniciado no Complexo Alemão para tratar das questões de direitos humanos e racismo na favela, Zilda Chaves contou sobre o projeto do grupo na área da educação: “A gente tem essa luta de tentar melhorar o que passamos no nosso dia a dia porque não esperamos do Estado. Pensamos nisso, começamos a olhar para o futuro, que são as crianças. Se a gente conseguir que pelo menos dez crianças saiam do nosso projeto sabendo lutar, sabendo que são pretas, sabendo as dores que vivem porque são pretas e nasceram em um território de maioria preta e pobre, já teremos feito algo. Porque elas não têm consciência disso hoje em dia”.

A palestra, parte da programação da OABRJ para o mês marcado pelo Dia da Consciência Negra (20 de novembro), foi apresentada pelo presidente da comissão organizadora, Marcelo Chalréo, e guiada pela advogada membro do grupo, Marcela Cardoso, que frisou: “A gente tem uma missão que não começou agora e não vai terminar tão cedo. Existe uma ancestralidade , existe uma estrada de pessoas que vieram antes de nós, que militaram muito para estarmos aqui”.

Ela citou um dado apresentado por Conceição Evaristo: o de que havia registros de propostas de cotas em universidades desde, pelo menos, 1950, e avaliou: “A Lei de Cotas, por exemplo, é recente, mas a discussão sobre a implementação dela é bem antiga. E agora nós passamos mais tempo ainda discutindo se ela deve ou não existir. Vamos além, vamos pensar agora os meios para torná-la mais eficaz, os meios para mais negros estarem nas universidades , estarem produzindo seus discursos”.