Em tempos nos quais as ameaças à liberdade de imprensa se intensificam de forma ameaçadora ao Estado democrático de Direito, em um processo que muito se compara com a criminalização do exercício da advocacia e da atuação da Ordem enquanto entidade guardiã dos princípios constitucionais, um dos painéis que encerraram a programação do Encontro Nacional da Jovem Advocacia (Enja) no Rio de Janeiro recebeu jornalistas renomados para questionar se há limites para esse princípio e analisar a situação no país.

Reconhecido por sua marcante trajetória no jornalismo mundial, o norte-americano Glenn Greenwald, radicado no Brasil desde 2005, que traz no currículo prêmios Pulitzer e Esso, entre outras premiações, iniciou sua fala lembrando que também é advogado – por mais de dez anos, atuou como constitucionalista nos Estados Unidos.

“Há treze anos não exerço a profissão, mas ultimamente constatei que, de fato, não se deixa de ser advogado. Na verdade, para mim há uma conexão muito forte entre as duas profissões porque acredito que ser advogado, em sua forma mais pura, mais nobre, é defender os mesmos valores que um jornalista que exerce sua profissão também da forma mais nobre, defende: os direitos constitucionais, as pessoas mais vulneráveis”, analisou.

Ele alertou para os riscos de se exercer, em particular, a profissão de jornalista no Brasil atualmente: “Jornalismo é uma profissão perigosa. Não há jeito de enfrentar poderosos sem riscos. Mas o que acontece hoje no Brasil é diferente, não é um perigo normal. Estamos no meio de uma campanha de criminalização da prática do jornalismo. A liberdade de imprensa é algo crucial para defender a democracia e é por isso que eles odeiam o jornalismo”.

Greenwald citou ataques que sofreu após o site do qual é co-fundador e editor-chefe, The Intercept Brasil, publicar uma série de reportagens conhecida como “Vaza Jato”, no qual são relatadas conversas vazadas do aplicativo Telegram entre o ex-juiz Sérgio Moro e o promotor Deltan Dallagnol, no âmbito da Operação Lava Jato, e pontuou: “Vemos hoje jornalistas respeitados, com anos de carreira, com medo de ir a eventos públicos, de ameaças sofridas”.

Em relação a um ataque em particular, o que o jornalista sofreu de um colega de profissão, Augusto Nunes, que o agrediu durante a transmissão do programa Pânico, da Rádio Jovem Pan, Greenwald foi desagravado e recebeu o apoio público da OABRJ por meio de seu Diretor de Comunicação, Marcus Vinicius Cordeiro.

“A violência praticada pelo jornalista [referindo-se a Augusto Nunes] é a expressão dos tempos de ódio em que vivemos. Tempos da política do confronto corporal, perigosa se for lida apenas como um momento de intempestividade. Não é só isso. É um método e deve ser punido e denunciado”, afirmou Cordeiro, que mediou o painel junto com a vice-presidente da Comissão de Privacidade e Proteção de Dados da Seccional, Samara Castro.

Diretor do portal SRZD e fundador da Rádio CBN, Sidney Rezende apontou em sua fala incongruências da população brasileira entre teoria e prática: “A gente fala em inovação, progresso, mas durante toda a história castigamos nossos inovadores. Quando pedimos modernidade temos que pensar que temos um ajuste de contas não com o futuro, mas com o passado. A ditadura militar ainda não foi passada a limpo, os algozes ainda não são conhecidos. Temos um ajuste de contas a ser feito com nossa história”.

Ele criticou duramente a postura de colegas da imprensa de se calarem frente a ameaças à liberdade de expressão e de imprensa: “Quando um presidente diz que pode tirar a concessão de uma emissora por uma matéria divulgada contra ele e todas as outras TVs ficam em silêncio a gente está se permitindo testar os limites da democracia”, afirmou, frisando que, a seu ver, os jornalistas perderam um pouco sua função de guardiões da cidadania: “no campo do Jornalismo, tanto quanto da Justiça, estamos nos perguntando se estamos exercendo nosso dever de ajudar esse país a ser um país melhor”.

O repórter do Jornal O Globo e professor da PUC-Rio Chico Otávio também falou sobre os riscos da profissão, que, a seu ver, mudaram de contornos nos últimos anos: “A cobertura do caso Marielle Franco me fez mergulhar nos subterrâneos do Rio de Janeiro. E percebi claramente uma expansão veloz e epidêmica da milícia que talvez hoje seja nosso maior risco no campo da segurança pública”.

Ele falou também sobre o combate às fake News, citando o caso de uma declaração dada por sua filha, também repórter, que, distorcida nas redes sociais, foi compartilhada pelo presidente Jair Bolsonaro, gerando inúmeros prejuízos à imagem da profissional. “As fake News não nasceram nas redações e provavelmente não irão morrer nelas, que a cada dia estão com menos gente, tirando seus jornalistas do front. Precisamos envolver outros setores da sociedade nesse combate”.