Reconhecida em 2017, pela OABPI, como a primeira advogada do Brasil, Esperança Garcia, a escrava que escreveu, em 1770, uma carta para o governador para denunciar violências e injustiças – que pode ser facilmente lida, com os olhos de hoje, como uma petição -, foi a figura histórica celebrada pela Comissão Estadual da Verdade e da Escravidão Negra no Brasil (Cevenb) da OABRJ no evento realizado na manhã desta quinta-feira, dia 12, na sede da Seccional.

“Personagens como Esperança Garcia e Luiz Gama [o primeiro advogado negro do país] foram esquecidos da história do Brasil. Daí a importância do trabalho de reparação da escravidão, que também traz luz sobre essas pessoas”, afirmou o presidente da Cevenb, que também comanda a comissão que trata do assunto no Conselho Federal, Humberto Adami.

O advogado citado por Adami, Luiz Gama, também recebeu homenagens na mesa, que contou com a presença do ator e membro da Cevenb Déo Garces. Prestes a estrear com a quarta temporada do espetáculo Luiz Gama: uma voz pela liberdade no papel principal, Garces contou como está sendo participar do resgate do nome deste que foi um patrono da abolição da escravidão do Brasil.

Também integrante da Cevenb, a historiadora Cláudia Vitalino fez comentários sobre as duas figuras históricas, além do contexto de racismo estrutural que, até os dias de hoje, invisibiliza negros, sua cultura e trajetória.

A escritora Sônia Rosa, que tem um trabalho reconhecido entre o público infanto-juvenil, apresentou seu livro Quando a escrava Esperança Garcia escreveu uma carta (Pallas, 2012), que tem como mote a carta que Esperança Garcia escreveu ao governador da Capitania de São José do Piauí, Gonçalo Lourenço Botelho de Castro. O documento foi recuperado pelo pesquisador e historiador Luiz Mott em 1979, no Arquivo Público do Piauí.

Em versão atualizada aos termos utilizados atualmente, a carta dizia:

“Eu sou uma escrava de V.Sa. administração de Capitão Antônio Vieira de Couto, casada. Desde que o Capitão lá foi administrar, que me tirou da Fazenda dos Algodões, aonde vivia com meu marido, para ser cozinheira de sua casa, onde nela passo tão mal. A primeira é que há grandes trovoadas de pancadas em um filho nem, sendo uma criança que lhe fez extrair sangue pela boca; em mim não posso explicar que sou um colchão de pancadas, tanto que caí uma vez do sobrado abaixo, peada, por misericórdia de Deus escapei. A segunda estou eu e mais minhas parceiras por confessar a três anos. E uma criança minha e duas mais por batizar. Pelo que peço a V.S. pelo amor de Deus e do seu valimento, ponha aos olhos em mim, ordenando ao Procurador que mande para a fazenda aonde ele me tirou para eu viver com meu marido e batizar minha filha.

 

De V.Sa. sua escrava, Esperança Garcia"

 

Rosa contou a história de Esperança, que aprendeu a ler e escrever com os jesuítas. Ela e seu marido se conheceram como escravos deles e, segundo ela, levavam uma vida com menos maus tratos no local: “Falo isso em um sentido bem básico, porque não tem como se ter uma vida confortável sendo escravo”, observou.

A escritora pontuou o poder que era a alfabetização na época: “Saber ler e escrever era uma forma de esticar a sua voz a outros mundos, outras eras, outras possibilidades. Registrar no papel é uma forma de se fazer um eco para gerações futuras e penso que foi isso que Esperança fez sem saber que estava fazendo”. Ela completa: “Era uma época em que as mulheres, mesmo as mulheres da corte, não sabiam escrever. E ela, uma mulher escravizada, tinha essa arma”.

Ela explicou que, quando os jesuítas voltaram para Portugal, Esperança se separou de seu marido e de alguns de seus filhos, sendo vendida com dois deles para um político que batia não só nela, mas também nas crianças. “Ela não suportou. Ela sabia ler e escrever e portanto fez o registro de sua indignação, de sua coragem. Entendeu que podia falar com o governador pela escrita. Uma ação absolutamente singular que muitos senhores da época não conseguiriam tomar”.