Uma abordagem da memória nacional partindo da complexidade das relações familiares dos militantes da luta armada contra a ditadura civil-militar, com foco no que era, para uma adolescente crescida no exílio de sua mãe, ser filha de um desaparecido político no contexto da promulgação da Lei da Anistia, em 1979, é o norte de Deslembro, primeiro longa-metragem de ficção da cineasta Flávia Castro, que foi exibido na noite desta terça-feira, dia 1º, em sessão especial na OABRJ.

Organizada pela Comissão de Direitos Sociais e Interlocução Sociopopular da Seccional, a projeção foi seguida de um debate que aprofundou a questão lançada no filme. Castro, a diretora do longa, contou que a história que contou na película é familiar – ela viveu o exílio com seus pais durante infância e adolescência – e que, mesmo não buscando fazer cinema político, quis mostrar o que era viver essa história de forma pessoal.

O jornalista Cid Benjamin, que fez parte da resistência armada contra a ditadura, sendo um dos integrantes do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), contou como reconhecia no filme sua história e a de sua filha, que nasceu no período em que estava exilado. Cid foi preso em 1970 e teve sua liberdade negociada na ocasião do sequestro do embaixador alemão Ehrenfried von Holleben. Se exilou na Argélia e depois morou no Chile - onde sua filha nasceu - em Cuba e na Suécia. Voltou para o Brasil no mesmo período retratado no longa, em 1979, anistiado.

“Disse para a minha filha que ela tinha que ver esse filme pois se reconheceria em vários momentos. Era difícil para uma criança compreender a complexidade do que estávamos passando”, disse Cid, contando que foi negado à sua filha o passaporte brasileiro e até mesmo que ela fosse registrada: “Por eu ter sido trocado pelo embaixador, fui considerado como ‘banido’, e não ‘exilado’. Eles alegaram, portanto, que um ‘banido’ era um morto civil e que mortos civis não teriam como fazer filhos”.

O drama das famílias que esperam até hoje informações sobre os desaparecidos políticos da época foi abordado tanto por ele quanto pelo presidente da comissão, Marcelo Chalréo. “É uma tortura prolongada”, frisou Cid.

O debate também teve participação da ex-dirigente sindical Marta Barçante.