Encerrando a primeira edição do Colégio de Presidentes das Comissões OAB Mulher, que aconteceu ao longo de toda a sexta-feira, dia 13, a diretora de Mulheres da OABRJ, Marisa Gaudio, recebeu o conjunto de medalhas Pedro Ernesto, maior honraria que o município do Rio de Janeiro oferece a uma pessoa que se destaca em seu campo de atuação. Marisa foi indicada pela vereadora Verônica Costa (MDB) para receber a comenda. 

Marisa preside a OAB Mulher desde 2017, ainda na gestão do atual presidente do Conselho Federal da OAB, Felipe Santa Cruz, que foi o primeiro a falar. Ele anunciou que a próxima Conferência Nacional da Advocacia, que acontecerá em 2020, terá todas as mesas compostas de forma paritária: metade homens, metade mulheres, representando a realidade da advocacia brasileira. "Temos milhares de talentosas e vocacionadas mulheres que têm o que falar e nós temos que ouvir", reforçou.

Observando o auditório lotado majoritariamente por mulheres, Felipe destacou o quanto a participação feminina na Ordem aumentou nos últimos anos. "Eu diria que apenas não resisti à mudança. Compreendi, por uma série de razões, que a nossa entidade precisava corrigir internamente as distorções que historicamente existiram na sociedade brasileira. Não resistir à mudança foi o que fizeram muitos dos dirigentes do nosso movimento de Ordem, para encerrar um tempo em que a política ainda era feita em ambientes masculinos, com códigos masculinos que levavam a exclusão das mulheres", disse, agradecendo à Marisa por ter sido uma das mulheres que deu os primeiros passos que proporcionaram a ocupação da entidade pela força da mulher advogada.

Primeira desembargadora negra do TJRJ, a diretora de Igualdade Racial da OABRJ, Ivone Caetano, classificou a homenagem à Marisa como merecida e disse "estar esperando há muito tempo" para ver os locais de poder tomados por mulheres. "Demorou, mas esse dia chegou", concluiu.

Em seguida, o presidente da OABRJ, Luciano Bandeira, definiu Marisa como uma lutadora destemida. "Boa parte dos avanços que conquistamos na pauta da advocacia feminina no Rio de Janeiro se deve à dedicação da Marisa. Entretanto, sabemos que ainda estamos distantes do ideal, mas temos Marisa a frente de mulheres que estão dispostas a lutar e vencer", disse.

Presidente do Instituto dos Advogados Brasileiros, Rita Cortez reforçou que a medalha traz o reconhecimento da sociedade do Rio de Janeiro pelo trabalho realizado pela OABRJ pelas mãos de Marisa. "É muito importante que tenhamos mulheres que saibam articular, e que saibam, principalmente, lutar e desenvolver o trabalho que hoje tem sido pensado e projetado nas comissões de mulheres em todas as subseções do Rio de Janeiro", afirmou. 

Reforçando que o momento era especial para todas as mulheres advogadas, a vice-presidente da OABRJ, Ana Tereza Basílio, destacou que a homenagem se estendia a todo o time da OAB Mulher e a todas as presidentes de subseção. "Estamos lutando para ter espaço nessa profissão tão conservadora que nós escolhemos. Não queremos vantagens, queremos igualdade, fraternidade e companheirismo", pontuou. 

O presidente da Caarj, Ricardo Menezes, saudou Marisa, que é sua companheira de diretoria na Caixa, ocupando a vice-presidência. "Ela é uma pessoa incansável que muito faz pela advocacia. Esse auditório está cheio de gente que veio te dar um abraço por tudo o que você fez nesse tempo", direcionou à ela. 

Em seu quinto mandato como vereadora, Verônica Costa destacou as dificuldades em ser mulher na sociedade brasileira. "Você é julgada pela sua aparência, a cor da sua pele, a cor do seu cabelo. As pessoas sempre vão te desqualificar", destacou. Sobre Marisa, ela declarou uma empatia instantânea logo quando se conheceram. "A Marisa consegue garantir o direito de muitas mulheres. Quando homenageamos ela, também homenageamos todas nós. Estar com mulheres como ela nós dá a força diária para enfrentar esse massacre que a gente enfrenta", reforçou.

Muito emocionada depois de todas as homenagens, Marisa iniciou sua fala dizendo o quanto é árdua a luta diária em prol dos direitos das mulheres. Ela citou o companheirismo que construiu com os colegas e as colegas do interior do Estado e agradeceu à família. "Agradeço toda à compreensão deles que ficam sem mim e sentem a minha falta", completou.

Em retrospecto, Marisa lembrou que começou a trabalhar na Ordem em 2007 e agradeceu a Felipe Santa Cruz, a quem ela disse ser grata por todas as oportunidades em momentos difíceis. "Tenho orgulho de dizer que foi um homem que me puxou. E eu tento, o tempo todo, ser uma mulher que puxa outras mulheres. Eu não quero estar sozinha nos espaços de poder. Por isso, a gente precisa se conhecer e dar as mãos. Juntas a gente consegue conquistar muito mais", reforçou.

Lembrando a campanha #SuaTogaNãoMedeMinhaRoupa, motivada pelas ações de uma juíza de Iguaba Grande que media as roupas das advogadas com uma régua, Marisa completou. "A gente não pode ser medida por nossa roupa, por nossa idade ou por nossa cor. Temos muito caminho a percorrer ainda, mas não podemos deixar que ninguem nos desmereça. E não deixem que façam isso com outras mulheres, não sejam coniventes com desrespeitos de juízes, promotores e até de colegas homens. Sabemos que as violências contra as mulheres acontecem o tempo todo", concluiu.

A Câmara de Vereadores também concedeu uma Moção de Louvor e Reconhecimento pela contribuição pela pauta feminina a advogados e advogadas do Rio de Janeiro. 

Colégio de Presidentes de OAB Mulher

Na abertura do encontro, Marisa reforçou a importância da Diretoria de Mulheres da OABRJ, a primeira e única do sistema OAB, criada na gestão de Luciano Bandeira. Durante o Colégio, ela passou a presidência da OAB Mulher para Rebeca Servaes, antiga vice-presidente, para se dedicar integralmente às ações da diretoria, que são mais institucionais. "A Diretoria de Mulheres tem que olhar pelo Estado inteiro, reforçar a importância de ter mulher na mesa. Precisamos de diversidade nessa casa", disse. Então secretária-geral, Flávia Ribeiro assumirá a vice-presidência da comissão. 

O Colégio de Presidentes das Comissões OAB Mulher reuniu as representantes da advocacia feminina em todo o Estado ao longo de toda a sexta-feira. O encontro foi dividido em três painéis:  enfrentamento à violência, política e prerrogativas e celeridade processual. "A nossa reunião de trabalho hoje vai ser mais dinâmica. Não vamos só falar, a gente quer ouvir vocês também", disse Marisa. "Nós, da Diretoria de Mulheres, estamos buscando há algum tempo agregar todas as mulheres que trabalham as pautas femininas nas subseções. E não só as advogadas, mas as mulheres de modo geral", afirmou. 

O secretário-adjunto da OABRJ e diretor do Departamento de Apoio às Subseções, Fábio Nogueira, reforçou a necessidade de união. "O fato de não ser negro ou não ser mulher, não significa que eu não possa ter empatia e me colocar no lugar do outro. É muito importante que hoje, nesse momento difícil que atravessa o nosso país, que a gente crie pontes de diálogos, e não muros que nos afastam, precisamos encontrar pontos de convergência e não de divergência. É um momento difícil, que demanda coragem, altivez e, sobretudo, união", afirmou.