OAB/Niterói: "Exame de Ordem seleciona quem quer advogar"

 

 

Do jornal O Fluminense

 

06/04/2008 - O número de inscritos no Exame da Ordem dos Advogados do Brasil, de acordo com dados do Conselho Federal da OAB, cresceu 2.533% nos últimos oito anos no País. Deste total, cerca de 80% foram reprovados. No Estado do Rio de Janeiro, no ano de 2007, apenas 10% dos 7,790 mil candidatos foram aprovados no processo seletivo.

 

Segundo Antônio José Barbosa da Silva, presidente da subseção de Niterói da Ordem dos Advogados do Brasil, o teste está mais rígido como uma forma de selecionar quem realmente quer advogar.

 

"O exame é feito para quem quer tornar-se advogado.O candidato relaxa ao longo do curso e não se prepara da maneira correta para a Prova da Ordem, que é uma peneira. A ânsia por concursos, e a estabilidade proporcionada, faz com que o estudante esqueça o exame e não encare o concurso com a seriedade devida", avalia.

 

Élvia Maria Almeida Gonçalves, coordenadora da Escola Superior de Advogados (ESA) da OAB Niterói, trata da atual situação das escolas e universidades brasileiras, que, segundo ela, piora a cada dia.

 

"Sobre a realidade educacional que vivenciamos em nossas escolas e universidades, é oportuno lembrar que o ensino no Brasil anda cada vez mais deficitário, em todas as esferas, desde a base até as graduações", afirma.

 

Ela diz que, para maior aproveitamento no Exame da Ordem, é necessária uma melhor organização e diálogo entre os envolvidos no processo de ingresso na OAB.

 

"Há a necessidade de as entidades de classe, no nosso caso a OAB, e as de ensino se organizarem, divulgando com antecedência anual as referidas datas dos exames. Isto permitirá que todos se preparem e tenham um melhor êxito na realização desses exames, sejam eles realizados duas, três ou quatro vezes por ano. O importante é organização" diz ela.

 

De acordo com Élvia, a grade curricular existente nas faculdades de Direito está defasada e não atende ao que é pedido pelo mercado de trabalho. Ela sugere também medidas que melhorariam o desempenho dos recém-formados nos exames da Ordem.

 

"Acho importante ressaltar que esse modelo de grade curricular que hoje existe nas faculdades de Direito não está atendendo as necessidades do mercado de trabalho. É necessária uma prática mais eficaz, e se preciso for, aumentar os anos de estudo, já que o produto final que estamos recebendo não consegue atingir o índice mínimo de 50% de aprovação nos Exames de Ordem", defende.

 

 

Presidente da Comissão do Exame de Ordem questiona qualidade do ensino

 

O presidente da Comissão do Exame de Ordem da OAB do Rio de Janeiro, responsável pela organização do concurso, Marcello Oliveira, afirma que a responsabilidade da reprovação do aluno não está no Exame da Ordem, e cita como exemplo o caso das universidades que conseguem um bom nível de aproveitamento.

 

"Se 66% dos alunos de uma determinada universidade foram aprovados e outras três ou quatro estão com percentual próximo, vê-se que o problema não é da OAB. Não é o Exame de Ordem que torna o candidato incapaz de ingressar no mercado da advocacia, é a formação dele nos ensinos básico, médio e superior. Alunos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Universidade Federal Fluminense (UFF) e Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), por exemplo, passam", avalia.

 

Marcello explica as modificações sofridas no processo de elaboração da prova, depois que esta passou a ser feita de forma unificada.

 

"Antes do Exame unificado, tínhamos as bancas exclusivamente do Rio de Janeiro que debatiam sobre os temas que entrariam na prova. Com o Exame unificado, a diferença é que temos uma banca nacional, que se reúne em Brasília para a elaboração e correção das questões", diz. Marcello lembra que a carteira da Ordem não é obrigatória para o bacharel em Direito, e aborda as possibilidades de atuação do profissional que não compõe os quadros da OAB: "Existem concursos públicos que têm conteúdo jurídico e não pedem a experiência prévia de advogado. O bacharel pode aproveitar seu conhecimento para administrar uma empresa. Quando o admitimos nos quadros da OAB, entendemos que ele, a princípio, tem a intenção de ser advogado. É importante que o bacharel exerça a advocacia para ter experiência e entender o lado do advogado e do jurisdicionado".

 

 

Profissionais defendem revisão do conteúdo da prova

 

Júlio Bordoni, coordenador do curso de Direito da Universidade Candido Mendes (Ucam), pensa que alguma coisa deve ser revista na prova, quando esta não atinge pelo menos 50% de aprovação. "O conteúdo da prova deve ser revisto, já que nela são cobradas matérias que não fazem parte do conteúdo programático das faculdades de Direito. Disciplinas como Direito do Consumidor e Previdenciário, aqui na Candido, são cadeiras eletivas, mas são cobradas no Exame da Ordem", afirma.

 

Ainda de acordo com Júlio, para obter sucesso nas provas, os cursinhos preparatórios não são obrigatórios.

 

"O aluno não precisa obrigatoriamente recorrer a um cursinho. Mas é necessário que ele faça um apanhado das matérias ministradas no início do curso, pois também são cobradas no Exame", aconselha. Deise Arakaki Mascarenhas, professora de Direito Civil e Processo Civil da Escola Superior de Advocacia (ESA), também fala sobre o que é cobrado no Exame, além de citar as oportunidades oferecidas pela instituição onde dá aulas.

 

"O Exame da Ordem não considera somente o entendimento da lei, mas também é cobrado o entendimento dos Superiores Tribunais. A ESA, visando à reciclagem e preparação para a prova, oferece cursos variados para os operadores e estudantes de Direito", revela.

 

Por outro lado, Carlos Augusto Leal Ferreira, do 9° período de Direito da Ucam, lançará mão dos cursinhos preparatórios para o Exame da Ordem, assim que iniciar o próximo e último semestre do curso.

 

"Assim que iniciar o 10° período, vou me matricular em um cursinho preparatório. Não quero correr o risco de ser reprovado no primeiro concurso de que participar", revela.