OAB/RJ apóia a luta de gays e lésbicas

 

 

Do G1

 

11/10/2007 - Em discurso sereno, mas firme, o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil-RJ, Wadih Damous, abriu na manhã desta quinta-feira o Seminário Orientação Sexual e Identidade de Gênero - Uma Questão de Direitos Humanos, uma parceria da Ordem com o Grupo Arco-Iris.

 

"Não é mais possível, em pleno século 21, tratar a diversidade sexual como tabu. Esta é a casa da liberdade, não há temas proibidos. É preciso banir o preconceito e a intolerância da sociedade brasileira", defendeu Damous, que foi muito aplaudido.

 

Participam do seminário políticos, autoridades, intelectuais e ativistas da causa GLBT (Gays, lésbicas, bissexuais e transexuais). Eles buscam medidas objetivas capazes de interromper um quadro que contabiliza mais de 2500 mortes de homossexuais no Brasil nos últimos dez anos.

 

Depois do presidente da OAB foi a vez do procurador regional da República, Daniel Sarmento, defender a união estável entre pessoas do mesmo sexo. Também bastante aplaudido, Sarmento destacou o fato de a Constituição não proibir este tipo de união e anunciou o envio de uma representação ao Supremo Tribunal Federal e ao Congresso, no sentido de que a lei seja regulamentada.

 

 

Procurador aconselha lésbica a processar cartório

 

Em meio a discussões sobre a melhor estratégia para enfrentar o preconceito contra homossexuais no Brasil, uma moça, sentada na platéia, chamou a atenção para um problema muito particular no seminário.

 

Aline de Oliveira Silva, 28 anos, perdeu todos os documentos e não consegue providenciar novos. Ela suspeita, tem quase certeza, de que a razão é o preconceito. Há cerca de dois meses procurou o Cartório da 12ª Circunscrição, Sexta Zona, na Avenida Geremario Dantas, em Jacarepaguá, na Zona Oeste, em busca dos novos papeis.

 

Corpo, voz e aparência masculinos, essa carioca da Penha, de 28 anos, conta que por um longo período foi observada, de alto a baixo, por dois funcionários do cartório. "A funcionária perguntou várias vezes se o documento era realmente para mim, porque não acreditava que eu me chamasse Aline. Mais, deixou claro que achava que eu não era mulher. Depois de muita conversa, ela decidiu realizar a busca, mas nada foi encontrado. Resultado, continuo sem documentos".

 

Ao ouvir seu relato, Daniel Sarmento, procurador regional da República, aconselhou Aline a recorrer a Justiça e processar o cartório. Ela pretende voltar a Jacarepaguá e, caso sua ultima tentativa se revele infrutífera, vai de fato processar o estabelecimento. Mas, para processar, Aline precisa de documentos. A Comissão de Direitos Humanos da OAB prometeu ajudá-la na solução do impasse.

 

 

Preconceito desde sempre

 

Aline convive com o preconceito desde sempre. Junto com seu irmão quatro anos mais velho, foi criada pelos avós maternos e uma tia. A mãe abandonou os filhos e o pai, até hoje, não sabe quem é. Ela se sente homossexual desde criança e diz que foi muito difícil a convivência familiar, especialmente com a tia, e escolar.

 

"Na época passava uma novela na TV Globo na qual Débora Bloch interpretava uma mecânica que vivia de macacão. O nome da personagem era Ana Machadão e durante todo o período de exibição da novela e mais um longo período fui chamada de Ana Machadão".

 

Adolescente, ouviu da tia que esta preferia que ela se juntasse a um bandido a levar a vida de homossexual. A barra pesou, a convivëncia tornou-se insuportável e Aline abandonou a escola e a família. O episódio abriu a porta do crime para Aline. Se envolveu com o pessoal do trafico na comunidade conhecida como Cinco Bocas, em Brás de Pina, e fez carreira. Foi vapor (entregava a droga ao consumidor) e subiu na hirarquia, tornando-se avião.

 

A breve carreira, iniciada aos 14 anos, foi interrompida aos 17 quando tomou um flagrante da polícia e foi encaminhada ao Educandário Santos Dumont, na Ilha do Governador. A partir deste episódio a convivência com a família melhorou, mas a vida em comum durou pouco.

 

Teve algumas namoradas e hoje divide a casa onde vive com uma ex, com quem foi casada por cinco anos. Tem dois trabalhos: é ladrilhista e ensina percussão, por meio da Ong Ibiss, a crianças carentes de Brás de Pina.

 

Apesar da aparência masculina, Aline tem traços finos. Garante não ter qualquer problema em relação a sua sexualidade. Exibe orgulhosa, em seu celular, a foto de sua barriga, do tipo tanquinho, capaz de matar de inveja os mais sarados dos pit boys. Joga bola desde menina, é fa de Marta e de Ronaldinho Gaúcho.

 

 

Responsável por cartório diz que está espantada

 

A responsável pelo cartório, Elzimar Coelho de Oliveira, se declarou espantada com o acontecimento. Segundo ela, não cabe aos funcionários decidirem quem deve ou não tirar o registro civil. E diz que gostaria de ouvir as queixas de Aline para saber o que, de fato, aconteceu.

 

"Peça a ela, por favor, que nos procure. O requerimento dela será enviado para o juiz e, assim que ele despachar, o registro será feito sem problemas".