OAB/RJ apura denúncia de execução no Complexo da Coréia

 

 

Da Assessoria de Imprensa da OAB/RJ

 

11/04/2008 - A Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil no Rio de Janeiro quer explicações do governo do estado para a morte do motorista Clécio Amaral de Souza durante operação da polícia na Vila Aliança, em Senador Camará, no último dia 3. De acordo com denúncia da mãe de Clécio, ele foi sumariamente executado por um policial enquanto aguardava, dentro da casa de um morador, o fim do tiroteio com traficantes. A presidente da comissão, Margarida Pressburger, garantiu à família plena assistência jurídica, e vai oficiar ao secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, solicitando informações, laudos periciais e registros da operação. "A OAB vai amparar esta senhora, e quer saber quem foi o responsável por essa morte brutal", afirmou Pressburger.

 

A mãe (o nome foi omitido por razões de segurança) de Clécio, de 30 anos, mostrou documentos atestando que o filho trabalhava em uma cooperativa de vans, como motorista, fazendo o trajeto diário entre Padre Miguel e Campo Grande. Ela apresentou também a carteira de trabalho, assinada desde os 15 anos, em empregos fixos como balconista, servente e gari da Comlurb. Recentemente, o padrasto comprou uma van, financiada em sistema de leasing por cinco anos, dando como garantia a casa da família, para que Clécio a dirigisse na cooperativa. Agora, depois de ver o filho morto, ela teme perder o carro e a casa, e não sabe como vai criar os dois netos, de 11 e de 13 anos - o mais velho, jogador na categoria de juniores do Vasco.

 

De acordo com o relato da mãe, o filho saíra para trabalhar e, no caminho, com receio de balas perdidas, ligou pelo celular para a esposa, avisando que estava abrigado na casa de um morador, que preparava uma criança para ir à escola, até que a operação terminasse. Mas, ao entrar na casa, contaram moradores, ele teria sido apontado por um policial que estava no helicóptero Águia. Em seguida, outro policial invadiu a residência e atirou pelo menos duas vezes, embora ele tivesse tentado explicar que era trabalhador e estava desarmado. No atestado de óbito de Clécio consta que ele teve ferimentos penetrantes e transfixantes no crânio e torax-abdome, com lesão do pulmão e do coração, por projetil de arma de fogo.

 

Sem saber que o filho havia sido assassinado, a mãe começou a estranhar a demora depois da comunicação por celular, por volta das 7h, e passou a procurá-lo pelas ruas da favela. Só no início da tarde, avisada por um morador, ela soube que os corpos dos 10 mortos durante a operação haviam sido levados para o Hospital estadual Albert Schweitzer, onde finalmente Clécio foi reconhecido por uma irmã.

 

Revoltada, a mãe diz que vai até o fim em busca de justiça: "Eu sou brasileira, tenho direitos. Quero que as autoridades respondam pelo assassinato covarde do meu filho. Meus netos ficaram sem o pai, que era um trabalhador e que, aliás, acreditava nesse governo. Não temos nada contra o trabalho da polícia na favela, mas tem que ser dentro da lei. Eles não podem matar inocentes e ficar por isso mesmo". A presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB/RJ informou que, além do acompanhamento do inquérito policial, a Ordem estudará acionar o governo na área cível, com ação de indenização por danos morais e materiais. O relator do caso é o conselheiro Claudio Sarkis Assis, que já no dia seguinte à operação, ao receber a denúncia, foi ao Core solicitar informações.