O timbre com incrível semelhança ao de Elza Soares, sustentado pela atriz e cantora baiana Larissa Luz, é apenas a primeira coisa que faz o espectador se arrepiar em “Elza, o musical”, que volta para o Teatro Riachuelo, no Centro do Rio, esta semana, para uma curtíssima temporada.

Carregada de simbolismo, a biografia teatral da cantora tem como grande trunfo seu elenco, composto por sete mulheres negras: além da excepcional Larissa Luz; Janamô, Júlia Dias, Késia Estácio, Khrystal, Laís Lacorte e Verônica Bonfim se revezam no papel-título e também interpretando outros personagens, inclusive masculinos.

Com direção de Duda Maia, a montagem não segue uma ordem cronológica e, ao som de músicas que marcaram a trajetória de Elza, como “Lama”, “O Meu Guri”, “A Carne” e “Maria da Vila Matilde”, conta com as talentosas atrizes para, em interação constante com o cenário, apresentar nuances da vida da cantora, tendo na fibra da voz de Luz uma representação da força de quem caiu muitas vezes, mas se levantou para existir no mundo por tantos anos – quantos mesmo? Elza Soares não revela sua idade, fato que é abraçado pelo texto de Vinícius Calderoni de excelente maneira.

A peça ergue bandeira, e não teria como deixar de fazê-lo. Elza, mulher negra periférica, que passou fome, foi obrigada a se casar com 12 anos e duramente humilhada pela sociedade ao se relacionar com o jogador de futebol Mané Garrincha, é um ser político por si. Ao apresentar sua origem e o contexto em que iniciou sua carreira, a montagem tem o poder de ativar a empatia até do espectador mais duro e pode chegar a derramar lágrimas nos ápices dramáticos de sua vida, como a perda de seus filhos. Nem por isso, porém, é um espetáculo triste: a biografia de Elza Soares mostra que há tragédias, mas também vida depois delas.

A grandeza de Elza Soares ecoa nas potências vocais das atrizes neste musical sem pausas e que é capaz de provocar tanta sorte de sentimentos. E a voz de uma, que é a voz de tantas que escolhem se erguer e resistir, perdura em nós mesmo depois que as cortinas se fecham.

O musical, dica de estreia da seção Papo de cultura, está em cartaz no Teatro Riachuelo até o dia 25; quintas, sextas e sábados às 20h; e domingo, às 18h. Pela parceria com a Caarj, advogados, estagiários e acompanhantes têm 25% de desconto no ingresso, que custa R$ 80 (inteira) ou R$ 40 (meia entrada). O teatro fica na Rua do Passeio, 38/40 – Centro.

Veja a agenda completa da programação cultural de janeiro com desconto para os colegas no site da Caarj.