Wadih Damous: "O que o morador de favela conhece do Estado é a violência policial" 

 

 

Do Jornal O Globo

 

06/04/2008 - Para o presidente da OAB/RJ, Wadih Damous, o sentimento de que é preciso fazer justiça com as próprias mãos não está restrito às áreas pobres da cidade, onde o tráfico de drogas julga e condena suas vítimas. Damous acredita que este sentimento, que nasce da falta de fé da população nas instituições, está presente também na Zona Sul, onde os moradores, até os mais escolarizados, são capazes de linchar um criminoso.

 

 

Qual a avaliação que a OAB/RJ faz desse estado paralelo do tráfico que julga e condena suas vítimas, como mostrou O GLOBO domingo passado?

Wadih Damous: O sentimento de que se pode fazer justiça com as próprias mãos não é exclusivo das favelas. Um transgressor flagrado na Zona Sul, que seja capturado pela população, vai ser linchado por pessoas, em tese, esclarecidas, que vivem e são proprietárias de um dos metros quadrados mais caros do mundo. E isso traduz uma descrença e uma desconfiança nas instituições públicas.

 

 

Por quê?

Wadih Damous: O que o morador de favela conhece do Estado é a violência policial. Por outro lado, os moradores do asfalto também não confiam no Estado. Acham que o Estado não provê, o Judiciário é lento e deveria haver pena de morte.

 

 

Mas o senhor não acha que o sentimento de insegurança é baseado em fatos concretos?

Wadih Damous: O Rio, como uma grande metrópole, é uma cidade violenta. Agora, há também a reverberação disso. O Rio se sente mais violento do que realmente é. Vitória, no Espírito Santo; e Recife, em Pernambuco, são cidades mais violentas, mas o que acontece nelas não tem o destaque que tem no Rio.

O que dizer para o morador da Zona Sul que espera uma política de segurança de confronto? Os moradores das áreas mais abastadas não enxergam os moradores das áreas pobres, que, para eles, não têm identidade. Aquilo que eles propugnam, que a polícia entre lá matando, eles não defenderiam para os seus filhos.

 

 

O senhor está decepcionado com a classe média?

Wadih Damous: Meu sentimento é de preocupação. É temer o que isso pode resultar. Esse sentimento de achar que "a democracia serve é para bandido" e "a Justiça é lenta, leniente".

 

 

Qual sua avaliação sobre a política de segurança do governo do Rio?

Wadih Damous: Se a política de enfrentamento tivesse que dar resultado, já teria dado.

 

 

O senhor acha que os investimentos do PAC podem ser uma saída?

Wadih Damous: Talvez, por parte da segurança pública, esteja nascendo um novo comportamento.

As obras do PAC começaram e não tive notícia de qualquer ocorrência por parte do crime organizado ou da polícia. A população quer as obras. As pessoas querem a presença do Estado. Não a polícia que mata e chuta porta de barraco. Querem a polícia para protegê-las.