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09/11/2018 - 16:20

Um estranho no ninho

CCBB recebe maior retrospectiva já feita na América Latina de Basquiat, um dos raros artistas plásticos negros de sucesso
 
CLARA PASSI
Jean-Michel Basquiat morreu por overdose de heroína em seu apartamento em Nova York, em 1988, aos 27 anos. Supersticiosos dirão que ele também foi vítima da “maldição dos 27”, que fulmina artistas no auge da fama a esta altura da vida, por motivos ligados ao abuso de drogas. Alguns exemplos são Janis Joplin, Amy Winehouse, Kurt Cobain, Jim Morrison e Jimi Hendrix. Nascido em 1960, nos Estados Unidos, numa família de ascendência afrocaribenha, o pintor começou pichando muros e o metrô do downtown novaiorquino. Era figura fácil nas boates da moda e em festas hypadas nos lofts. Naquele final dos anos 1970 e início dos anos 1980 (antes, portanto, da política de Tolerância Zero ao crime do prefeito Rudolph Giuliani), a epidemia de crack e a violência urbana assolavam a cidade. Esse caos era também caldo de cultura para uma vibrante cena artística, sobretudo na arte urbana. 

Basquiat pintava muros, portas, esquadrias de janelas, pratos e peças de madeira e tudo o mais que achasse pelas ruas. Sua produção foi se diversificando e mesmo antes de completar 20 anos de idade vendia – e muito bem – o que produzia. Amigo e pupilo de Andy Warhol, foi um pioneiro no universo das artes plásticas: pela primeira vez, um negro levou um estilo autêntico, vindo das ruas, para as galerias do mundo. 
 
Catalogado como neoexpressionista, saiu da vida para entrar para a história da arte: em maio de 2017, um empresário japonês adquiriu na Sotheby’s a tela Sem título por US$ 110 milhões, recorde para um leilão de artista americano. O arremate o catapultou ao seleto grupo de artistas plásticos cujas obras foram compradas por preços superiores a US$ 100 milhões, tais como Pablo Picasso, Alberto Giacometti, Francis Bacon e o próprio Warhol. Agora, chega ao CCBB do Rio a maior exposição dele já realizada na América Latina.  Com entrada gratuita, a retrospectiva fica em cartaz até 8 de janeiro de 2019, depois de já ter rodado São Paulo, Brasília e Belo Horizonte.

A mostra explora as três grandes fases do artista: a primeira, de 1976 a 1979, mostra o início no grafite, com a tag de grafite compartilhada com o amigo Al Diaz (SAMO, abreviatura da expressão SameOldShit, ou Mesma Merda de Sempre). A segunda, de 1980 e 1982, revela sua faceta multiartística, período que é considerado o auge de sua produção. A última é composta pelas obras feitas com Andy Warhol (1983 a 1988). Esse casamento artístico rendeu uma centena de quadros.

A técnica de Basquiat, inovadora para a época, mesclava sobre a tela elementos como colagens, cópias reprográficas, palavras e imagens da anatomia humanas – estas, inspiradas no livro Gray’s anatomy, lido por Basquiat na infância, enquanto se recuperava de um acidente. 

“Apesar de ter morrido muito jovem, Basquiat teve uma produção intensa e muito valorizada ainda em vida, fruto de suas ideias incessantes, mas, sobretudo, do momento culturalmente rico em que viveu em Nova York. Ele soube lidar muito bem com o mercado, com a mídia e com as galerias, sem deixar de ser um artista autêntico e de afirmar o seu estilo”, conta à TRIBUNA o curador Pieter Tjabbes, holandês radicado no Brasil.
 
Tjabbes destaca, entre os artigos expostos, o filme Downtown 81, no qual Basquiat é protagonista. “Narra a vida de um jovem artista em Manhattan, a vida noturna, as bandas da época e muito mais. Assim, o público pode entender um pouco mais da vida e cultura do início dos anos 1980 em Nova York”. 
 
  • Serviço
    Centro Cultural Banco do Brasil
    Rua Primeiro de Março, 66 - Centro 
    Telefone: (21) 3808-2052
    Funcionamento: De quarta a segunda (fecha na terça), das 9h às 21h
    De 12/10 a 8/1/2019
    Entrada gratuita
    Classificação: Livre