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19/07/2018 - 18:55

Dica do mês: Sueli Costa em sarau afetivo

MARCELO MOUTINHO
Sucesso nas vozes de Elis Regina, Gal Costa, Simone e Maria Bethânia, entre outras intérpretes, a compositora Sueli Costa completou em 2017 cinco décadas de trajetória artística. A comemoração se deu na forma de um show, que trazia clássicos como Jura secreta, Face a face e Encouraçado. Parte desse repertório foi agora reunido no CD independente Sueli Costa convida Fernanda Cunha e Áurea Martins.

Fernanda, sobrinha da compositora e também cantora, idealizou a homenagem. Áurea é um daqueles grandes talentos que o Brasil insiste em ignorar. A dupla havia participado das apresentações na Sala Baden Powell e na Casa do Choro, onde o espetáculo foi gravado no dia 16 de março de 2018. Nas canções selecionadas para o CD, as três artistas conseguem combinar o clima quente da gravação ao vivo com a atmosfera íntima de um sarau em família. O afeto é quase palpável.

São dez faixas, que renovam o espanto diante dos desenhos melódicos de Sueli. As notas se assentam em letras sempre inspiradas. Eis, aliás, um dos grandes talentos da compositora, reiterado no disco-tributo: a busca por parceiros capazes de encontrar a palavra precisa. De sentir a música, à flor da pele, e potencializá-la com o verso. Abel Silva, Ana Terra, Hermínio Bello de Carvalho, Cacaso, Tite de Lemos, Aldir Blanc.

“Só uma palavra me devora / Aquela que meu coração não diz”, escreve Abel na lancinante Jura secreta. Em Altos e baixos, Aldir inventaria a relação recentemente desfeita ao lembrar que “o amor, quando traz tanta vida, / até pra morrer leva tempo demais”. Cacaso se vale da imagem do anjo de unhas e asas pintadas para emprestar o eu-lírico à própria Sueli: “Quem me vê assim cantando / Não sabe nada de mim” (Dentro de mim mora um anjo).

Ao fim da audição do disco, reverbera o sentimento de que talvez tenhamos perdido, em algum momento, certa sofisticação na poética da dor.