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19/07/2018 - 18:52

À espera do último pau-de-arara

CLARA PASSI
O fotógrafo Felipe Fittipaldi ficou instigado por pesquisas de estudiosos da dinâmica demográfica brasileira que mostram que a grande mudança no meio rural nos últimos anos é a conversão do êxodo generalizado (intensificado na segunda metade do Século 20) em um processo mais seletivo, que preferencialmente remete às cidades a população jovem e altamente produtiva. Esse esvaziamento deixou rastros no chamado Brasil profundo e evidenciou a iconografia do modo de vida “parado no tempo” dos que escolheram ficar na terra natal. Os reminiscentes das populações tradicionais do semiárido baiano são o objeto do ensaio de Fittipaldi na série Morada do caboclo (foto), em cartaz até 5 de agosto, no Centro Cultural Justiça Federal, na Cinelândia. 

Com curadoria de Marco Antonio Portela, a exposição tem 18 quadros e três impressões em tecido translúcido, entre elas um impressionante close do rosto do caboclo-ícone. Numa sala separada, o espectador assiste a uma projeção com as fotos com alguns efeitos sonoros captados in loco. Tudo ali faz lembrar a letra da música de Luiz Gonzaga, Último pau-de-arara (“Eu vou ficando por aqui/Que Deus do céu me ajude/Quem sai da terra natal/Em outros cantos não para/Só deixo o meu Cariri/No último pau-de-arara”). 

“O que está acontecendo no interior do Brasil é um fenômeno global, por isso eu diria que o grande responsável por esse êxodo juvenil é a revolução nos meios de comunicação. Mais especificamente, o celular. Através dele, o jovem está conectado com o mundo e a vida que seus pais tiveram já não basta”, analisa o fotógrafo radicado no Rio, conhecido por colaborar para a revista National Geographic, o jornal El País e publicações da Editora Abril. Em 2018, Fittipaldi foi selecionado pela World Press Photo Foundation - 6x6 Global Talent Program.

O projeto começou numa visita ao sertão baiano para uma reportagem sobre arqueologia, em 2015. “No caminho para os sítios de pesquisa, fiquei intrigado por algumas casas isoladas em meio à caatinga, daí o nome do ensaio. Visitei essas pessoas e fiquei muito impressionado. Elas faziam suas escolhas de vida a partir de valores muito diferentes dos nossos. Resolvi voltar por conta própria, um ano depois, para realizar o trabalho”.

Fittipaldi não gostaria que seu trabalho despertasse pena por esses personagens embrutecidos pela vida dura que levam. “Estão ali porque querem, muitos poderiam viver com seus filhos em cidades como Petrolina ou Feira de Santana, mas escolheram estar ali sendo eles mesmos”, avalia. “No sertão, eles construíram o mundo deles. Uma cultura que se manifesta no mundo físico e simbólico. No couro das roupas, no barro das casas, na música, na relação com os animais e com as pessoas e também na religiosidade febril. Na cidade, perderiam essa identidade sertaneja de alguma forma”.

O fotógrafo conta que foi tocado profundamente pelos retratados. “São pessoas que desenvolveram uma sabedoria que nos falta na cidade. A forma como lidam com a solidão, a morte e a falta de garantias na vida é um tapa na cara”.  Um dos personagens que Fittipaldi visitou por dois anos seguidos estava sozinho, sentado na cama na mesma posição nas duas vezes. “Não havia eletricidade na casa. Olhei para onde ele estava olhando e não havia nada. Quando eu perguntava sobre envelhecer ali sozinho, ele respondia com tranquilidade. Não havia medo. O medo era meu de estar numa situação vulnerável como a dele”.

A série foi premiada na Holanda pelo LensCulture Emerging Talents e foi premiada pelo Centro Cultural São Paulo, CCSP – Mostra Individual 2017, POY Latam Awards, Paraty em Foco 2017 e Foto em Pauta 2017. 

Serviço:
  • Centro Cultural Justiça Federal
    Av. Rio Branco 241 - Centro (Estação Cinelândia)
    Telefone: (21) 3261-2550
    Funcionamento: de terça a domingo, das 12h às 19h 
    Até 5 de agosto
    Entrada gratuita
    Classificação livre