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12/06/2018 - 16:31

Do muro para a galeria de arte

 
 
Caixa Cultural recebe exposição de celebridade do grafite
CLARA PASSI
Se já virou clichê escrever que o grafite saiu das ruas e ganhou espaços antes só dedicados às artes plásticas, digamos, mais tradicionais, Tomaz Viana, o Toz, é um dos responsáveis por essa reiteração.
 
Formado em design, o artista, de 42 anos, nascido em Salvador e radicado no Rio, ganhou fama por aqui com o coletivo Fleshbeck Crew, que, desde o final dos anos 1990, dá roupa nova a muros do Centro, Jardim Botânico e Gávea. Os bonecos de cores vivas com ares de mangá de Toz logo se descolaram das paredes e foram dar um certo ar cool e descolado a acessórios, embalagens de refrigerante, capas de CD, desfiles de moda e eventos corporativos, calando aqueles que consideravam arte urbana sinônimo de marginalidade e vandalismo. 

Os limites foram se expandindo até atingir níveis superlativos: é de Toz o painel de 75 metros de altura por 10 de largura, feito à custa de 800 latas de tinta, na lateral do Hotel Marina, no Leblon. É dele também o maior mural de grafite do Rio, um colosso de dois mil metros quadrados pintado com outros 20 artistas convidados na parede de uma empresa na Zona Portuária. Dessa vez, foram esvaziadas 1.500 latas. Nos anos seguintes, Toz fez uma exposição individual em Paris, pintou dois painéis de grafite indoor em Nova York e Hong Kong e entrou para a história como o autor do primeiro carro alegórico todo grafitado do Carnaval carioca. Foi em 2017, no desfile da Mangueira. Numa mostra de maturidade artística, Toz agora aprofunda a narrativa em torno de um de seus personagens mais emblemáticos: Insônia, uma “entidade noturna e onipresente”, criada em 2010 num momento em que o próprio trocava o dia pela noite. A figura mítica, inspirada nas forças da natureza, e suas raízes são mote da exposição gratuita TOZ – Cultura insônia, em cartaz na Caixa Cultural até 26 de agosto. 

Ao visitante serão oferecidas telas, esculturas, manequins e duas instalações, uma delas interativa. Alguns dos trabalhos são inéditos, feitos especialmente para a mostra. Nesse mergulho, ele foi além da tinta spray: usa também ferro, resina, cabaça e gesso. Toz conduzirá visitas guiadas em três sábados (16 de junho, 14 de julho e 18 de agosto), com horários a confirmar. O artista apresenta os integrantes dessa civilização imaginária de insones e a relação deles com a cultura, os ancestrais e a natureza que os cerca. E aproveita para falar de miscigenação, territorialidade e ciclos migratórios.  “Minha arte dialoga com as questões da contemporaneidade”, afirma. “Minha pintura retranscreve meus interesses ou minhas preocupações. Sempre misturo o mundo real e o da fantasia para deixar o público criar sua própria interpretação”.

Sem intenção, esta mostra e os demais itens da programação da Caixa Cultural (como a mostra de Portinari, que vai até 1º de julho, por exemplo) dissipam a tensão causada pela informação veiculada pelo jornal O Globo de que funcionários foram avisados sobre o fechamento do prédio da Caixa Cultural na Avenida Almirante Barroso, que concentra quatro galerias, salas de cinema e teatro. A razão seria o alto valor do aluguel, o que ocasionaria a transferência do setor administrativo para um imóvel na Rua do Passeio até o fim de agosto. O local, contudo, não comporta a programação cultural abrigada no atual espaço e a solução seria a transferência das atividades agendadas até o fim do ano para o Teatro Nelson Rodrigues, que também pertence à Caixa. Procurada pela TRIBUNA, a instituição mantida pelo governo federal diz que “não se manifestará sobre as negociações em andamento”. Toz tampouco comenta.
 
Serviço:
  • Caixa Cultural Rio de Janeiro – Galeria 3 
    Av. Almirante Barroso, 25 - Centro (Metrô e VLT: Estação Carioca)
    Telefone: (21) 3980-3815
    Funcionamento: de terça a domingo, das 10h às 21h
    Até 26 de agosto
    Entrada gratuita
    Classificação livre