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16/05/2018 - 14:39

Selminha Sorriso, nova colaboradora da Comissão da Verdade da Escravidão Negra

O sorriso que, de tão característico, virou parte do nome artístico da porta-bandeira da Beija-Flor Selma de Mattos Rocha deu lugar a lágrimas de emoção no dia 24 de abril, no Plenário Evandro Lins e Silva. Selminha recebeu o diploma de membra da Comissão Estadual da Verdade da Escravidão Negra no Brasil (Cevenb) pelas mãos do presidente, Humberto Adami, sob as bênçãos de integrantes da velha guarda e da ala das baianas da escola de samba de Nilópolis, todos igualmente comovidos.

Selminha acaba de se formar bacharela em Direito e foi homenageada também por sua atuação à frente do projeto social Sonho do Beija-Flor, voltado para crianças, que funciona na comunidade. A palestra, intitulada Reparação da escravidão, samba e carnaval, foi sobre o tema, marca dos desfiles do último carnaval, para não fique restrito apenas aos quatro dias da folia. Vídeos em homenagem a Dona Ivone Lara e a Marielle Franco abriram o evento.

“A população negra está ocupando os espaços, em vez de ser apenas objeto de estudo”, disse Adami sobre a nomeação de Selminha. “A reparação é a única possibilidade de salvação do Brasil. O país ainda não conseguiu sanar a dívida histórica que tem com os negros e pardos, que representam 54% da população”.
Na tribuna, Selminha narrou sua trajetória desde a infância na comunidade de Parada de Lucas até ser a primeira de sua família a ter ensino superior. “Devo tudo ao samba. Ano que vem, completo 30 anos exercendo esta arte, que era meu sonho de infância. Sei que faço parte da baixa estatística de mulheres negras que conseguiram o diploma”.

A diretora de Igualdade Racial da OAB/RJ, Ivone Caetano, sublinhou que o samba foi muitas vezes criminalizado enquanto estava nas mãos do negro e hoje isso não ocorre mais. No entanto, observou, a democracia racial brasileira da Carta de 88 continua distante. “Somos só massinha de manobra”, cravou ela.
A carnavalesca Maria Augusta, madrinha da carreira de Selminha, relembrou enredos marcantes sobre a luta dos negros em carnavais passados. “O Salgueiro antes e hoje a Beija-Flor se destacam por falar do negro não só como sofredor, mas como sujeito, com suas causas e consequências. Isso é o mais importante no contexto do carnaval como artifício de reparação da escravidão”.

A presidente da Cevenb da OAB do Piauí, Maria Sueli Rodrigues, falou sobre a concessão do título de primeira advogada negra daquele estado a Esperança Garcia, mulher cativa que denunciou em cartas as perversidades da escravidão no Século 18.

A professora Neusa Pereira, representante da Casa das Pretas – onde Marielle Franco participou de sua última atividade como vereadora antes de ser assassinada –, espalhou borboletas pelo auditório. O inseto simboliza a luta das mulheres contra a violência da ditadura de Rafael Trujillo na República Dominicana (1930-1961). A advogada de 90 anos e militante ekedi Maria Moura e a agência de jovens modelos negros Grupo Palco dos Meus Sonhos também se pronunciaram.